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Double or Nothing

18 de Março de 2006 por Policy10

Double or Nothing

Double or Nothing (DoN) é um dos tipos de Sit&Go mais popular nos dias que correm. Nestes torneios, metade dos jogadores dobra o investimento inicial e a outra metade perde, portanto o número final de fichas não é relevante, já que o objectivo é sobreviver - este é um survival game.
Existem DoN de 6 e 10 jogadores, sendo que as abordagens são bastante semelhantes, por isso vou-me centrar nos de 10 jogadores da PokerStars.
Um dos aspectos mais importantes deste tipo de Sit&Go, que não está intrinsecamente ligado ao jogo, é a fee.
Existem várias salas online que nos oferecem a possibilidade de jogar este jogo, sendo que a fee varia de 4 a 10% do valor do buy-in. Se formos vencedores em 55% dos DoN's na PokerStars, o nosso ROI (Return Over Investment) é de 5,77 % (a PokerStars tem a fee mais baixa do mercado, no valor de 4%); com esta mesma taxa de sucesso, numa sala em que a fee seja 10%, o nosso ROI já vai para 0% (Exemplo: se jogarmos 100 DoN de 10$ na PokerStars com 55% de sucesso ficamos 60$ "up" e ficamos “even” se for numa sala que ofereça DoN com 10% de fee).

Nos DoN’s há 2 fases importantes e convém distinguir a abordagem adequada a cada uma delas: Primeiros níveis de Blinds e a Fase da Bubble.

Primeiros Níveis de Blinds

A parte inicial dos DoN não é a mais importante, mas para jogar de uma forma eficaz deverá ser abordada de forma bastante tight - o objectivo é sobreviver.
Nesta fase (até as blinds chegarem a 50/100 ante 10) eis o meu range de open raise: UTG é QQ+, AK e no BTN é 88+ e AJ+, sendo que faço limp behind/call a raise até ao máximo de 120 fichas com PP’s unicamente para Set Mining.
Um excelente exemplo para explicar o porquê desta abordagem extremamente tight é o de que um coin flip para a stack será sempre EV- (metade das vezes perdemos e na outra metade que dobramos a stack não garantimos a vitória no DoN). Perceber o conceito e a utilidade das fichas num DoN é extremamente importante.

 Em qualquer Sit ou Torneio, a última ficha é sempre a que tem mais valor/utilidade e todas as fichas seguintes têm um valor/utilidade cada vez menor. Num DoN isto também é verdade, mas existem algumas diferenças quando comparado com um Sit normal. As fichas ganhas excedentes à stack inicial têm menos utilidade que num Sit normal, sendo que o seu valor é bastante mais decrescente (Exemplo: num DoN em que a stack inicial são 1500 fichas, ter 4000 ou 6000 fichas representa uma probabilidade de conseguir o nosso objectivo quase igual, enquanto que num Sit normal isto não é verdade). Não fazer bluff, jogar passivo tight e evitar drawing hands são abordagens a este jogo que se adaptam a este conceito.

Juntando o conceito da utilidade das fichas com a nossa abordagem tight ao jogo, devemos procurar ter um elevado showdown, sendo que o resultado final de cada pote dever-se-á reflectir na força da nossa mão. Um exemplo: Num cenário em que temos 1000 fichas atrás, o pote já está em 3000 e temos a 4ª melhor mão possível no river; Shove? Provavelmente não, apesar de sabermos que a nossa mão será a vencedora uma grande parte das vezes, mas ficar com 4000 ou 5000 fichas tem uma importância muita pequena para as vezes que vamos perder. Prefiro ficar 100% das vezes com 4000 ou 1000 fichas (fazendo check behind no river, por exemplo) do que 80% das vezes com 5000 e 20% com 0 fichas (quando vamos all-in no river e levamos call).
Teremos de passar esta fase com mais de 1200 fichas em mais de 90% dos DoN’s que jogarmos, apenas será justificável perder nesta fase em situações de 70/30, ou melhor, a nosso favor. Se isto não estiver a acontecer, algo está mal no nosso jogo e provavelmente estamos a envolver-nos em demasiadas mão. O nosso VPIP (% de vezes que colocamos fichas sem ser nas blinds) deverá ser algo em torno dos 7-8% nesta fase.

Pré-Bubble e Bubble

Quando as blinds atingem o nível 75/150 com ante de 15, 99% das nossas acções terão de ser all-in ou fold, a opção raise/fold é demasiado má para ser sequer discutível. Neste nível de blinds, estarão em média 7 jogadores dos 10 iniciais, logo estamos numa fase de pré-bubble visto que paga a 5, devemos portanto jogar quase como se da bubble se tratasse. Pré-flop estarão no pote 330 fichas, que representam mais de 15% da stack média.
Nesta fase é muito importante perceber o conceito ICM (Independent Chip Model). Este conceito é um pouco difícil de explicar e não me vou alongar sobre ele, mas está relacionado com o nosso valor esperado de acordo com as fichas que temos. O ICM calcula qual será o nosso resultado final no longo prazo de acordo com as nossas fichas e com a tabela de pagamentos. Quanto menos fichas temos, mais valor elas têm, ou seja, 1000 fichas valem mais do que 1/5 de 5000 fichas. O ICM é fundamentalmente usado para perceber se é +EV ou não ir all-in na fase da bubble e, por isso, aconselho todos a procurarem alguns programas online para testarem se estão a ir all-in com o range adequado de mãos.
Nos DoN’s a tabela de pagamentos é idêntica para todos os primeiros 5 lugares, logo o ICM fica mais fácil de calcular e podemos ver isso através de um exemplo simples: na bubble estão 6 jogadores e todos com 2500 fichas, logo a probabilidade de cada um ganhar é de 80%. Se estivermos num DoN de 10$+0,40$, cada jogador nesta fase tem um valor esperado de 16$, o que significa um lucro de 4,6$ para cada um no longo prazo.
Continuando com o exemplo anterior, se formos all-in com KK e levarmos call de A2, temos 70% para ganhar a mão e ganhar o DoN, ou seja, passamos de uma situação em que temos 80% para uma de 70%.O nosso oponente passa de 80% para 30%, para onde foi o resto da Equity??? Os outros 4 jogadores passam de 80% para 100%!!!! Portanto, concluímos que teremos de ter extremo cuidado com as mãos com que vamos all-in, a quem colocamos all-in e ainda mais cuidado com as mãos com que damos call a all-in.
É muito importante controlar as stacks dos adversários, se somos os shorts da bubble, temos de ir all-in com um range de mãos bastante mais largo do que quando estamos em 3º ou 4º em fichas. Pressionar as stacks que são idênticas à nossa e não pressionar os shorts nem as big stacks.
É evidente que o range de all-in deverá ser bastante diferente quando estamos UTG ou se estamos BTN ou SB. Compreender isto é fundamental, quer em DoN, quer noutra vertente de Poker qualquer.
Um dos erros mais comuns quando estamos chip leaders de um DoN é dar calls a shorts na tentativa de acabar com o sit o mais rápido possível, mas o objectivo é exactamente o contrário: Não queremos ser nós a fazer o “trabalho sujo” de eliminar o último adversário, não queremos perder Equity para ganhar o sit.
Há muitos pequenos detalhes que, além de serem difíceis de explicar, não fazem sentido para quem se está a iniciar neste tipo de sit’s, mas que com a experiência se vai percebendo que são importantes: distribuição das stacks na mesa, facilidade com que as big stacks dão call, se os shorts são muito tights ou não, etc, etc.
Espero que com esta descrição básica sobre os DoN melhorem os vossos resultados.

Boas Dobras!
Henrique “Policy10” Pinho