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John Juanda vs Ivan Demidov na Final Table das WSOPE 2008

17 de Janeiro de 2006 por Equipa Portugal Poker

John Juanda vs Ivan Demidov na Final Table das WSOPE 2008

Pedimos a três jogadores nacionais André “Aggy”Aguilar, Nuno “Catita” Ferreira e Catarina “Katrina” Santos para nos analisarem uma jogada que decorreu durante a Final Table das WSOP Europe 2008 quando já só tínhamos três jogadores em jogo: John Juanda e os dois Russos, Ivan Demidov e Stanislav Alekhin.
Com Blinds 12.000/24.000 e Ante de 3.000, após Alekhin fazer fold, Juanda faz complete na Small Blind com As9h; Demidov tem opção de check ou raise na Big Blind e opta por fazer raise para 65.000 com Qs10c, ao que John Juanda responde com limp/re-raise para 165.000. Demidov após uns segundos de ponderação faz call e partimos para o flop com um pote de 339.000 fichas.
O flop é Kh5d2s e ambos os jogadores fazem check. O turn é o Ac e Juanda faz de novo check. Desta vez, Demidov decide apostar 202.000 fichas e Juanda faz call com o seu top pair.
Num pote já com 743.000 fichas, o river é um 8h e Juanda faz de novo check, ao que Demidov dispara de novo uma aposta de 333.000.
Juanda após alguma ponderação e um introspectivo "Why did i play the hand this way?" decide-se pelo call, desmascarando o bluff de Demidov e levando um enorme pote de mais de 1,4milhões de fichas.
Como descrevem a acção de ambos os jogadores pré-flop, os dois "barris" de Demidov e também o call de Juanda no river?

 

 

Catarina “Katrina” Santos

Esta mão é determinada pela abordagem menos convencional que Juanda tomou tanto na acção pré-flop (limp/re-raise) como pós-flop, escondendo o seu A9 de Demidov, como aliás ele próprio reconhece no chat. 
O raise pré-flop de Demidov é normal, extraindo valor de QT, perante um complete da SB. O re-raise de Juanda destina-se a tirar informação do que foi o raise do Demidov, tentando obter uma resposta à pergunta: Será que foi a punição de um limp? Simultaneamente, tenta, fazendo limp/re-raise, representar uma Premium.
Juanda, sem posição, opta por não fazer cbet no flop, estando o pote já sobrelevado, e Demidov, percebendo que, estando um K no range de Juanda em mãos como AK, KQ, AA, KK, esta ausência de cbet não é esclarecedora por enquanto e faz também check.
Perante o Á no turn e o segundo check de Juanda, Demidov lança o primeiro barril, sendo o Ás uma excelente carta para Demidov representar já que, paralelamente, este esperaria que Juanda apostasse com mãos como AQ, AJ, A10.
Demidov, perante um pote tão grande e um check/call de Juanda no turn (o que significa que não terá uma mão tão forte, nem um Ás com kicker alto, do qual tentaria extrair maior valor), tenta fazer com que Juanda faça fold de possíveis mãos marginais e outro tipo de mãos que falharam nesta board ou que jogaram para pot control, como pares médios (66, 77, 99, por exemplo).
Penso que os check/call de Juanda são manifestamente prudentes face ao pote enorme que se havia criado pré-flop, e os dois barris de Demidov são a única forma deste jogador ganhar o pote, representando muito bem um Ás, associando ao facto de que Juanda não parece ter uma mão suficientemente forte para pagar o segundo barril no river. Tal como Juanda diz, seguiu uma linha estranha, o que acabou por fazer com que a sua mão ficasse sub-representada e, dessa forma, acaba por ser um bom call dadas essas condicionantes.

André “Aggy” Aguilar

Numa disputa de Blinds ambos os jogadores jogam aquilo que se espera de um “Three-handed” de uma Final Table de um torneio: tentar ganhar potes pré-flop com mãos medianas (ou mesmo any two, dependendo das circunstâncias). Mas estamos a falar de uma mesa final das WSOPE, onde se encontram 2 jogadores de classe mundial que têm logicamente mútuo respeito.
Não sei o que leva Juanda a fazer limp/raise com A9 neste spot, mas provavelmente o range com que Demidov andava a fazer raises a limpers na BB/SB levou Juanda a pensar num move com A9 para levar um bom pote ali mesmo.
Depois do limp/raise de Juanda, o pote fica em quase 250.000; Demidov tem pot odds de 2,5/1 e Juanda sabe que está a dar as odds certas para Demidov foldar uma mão marginal ou fazer um call legítimo com uma mão intermédia, como K10, Q10, Weak Ace, ou mesmo J10suited/10 9suited. Juanda sabe também que com uma mão Premium naquele spot, smooth call seria uma opção muito válida por parte de Demidov. Portanto, os jogadores vão ver o flop com muita cautela, sem fechar muito o range de mãos que cada um pode ter.

Em relação aos barris, a mão em si corre bem a Juanda: check-check no flop e “Aces Up” no turn. O check de Juanda no turn coloca Demidov na posição de representar o Ás, e este possivelmente já pode estar a pôr o adversário num “Pre-flop-move-gone-wrong,” depois de 2 checks com A e K na board. É com essa leitura que no river Demidov dispara novamente, não temendo o call da ronda de apostas anterior.
Tendo Juanda jogado em check/call até ao river, a legitimidade do movimento no river é passível de análise...Vejamos: Que mãos é que Demidov imagina que Juanda pode ter para ter feito limp/raise pré-flop, check no flop e call no turn e que possa foldar no river? Um slowplayed K10/KJ? Weak Ace? Um bluff (limp-raise pré-flop com JJ/QQ bastante mais remoto para um jogador como Juanda nesta fase do torneio)?
Bom, essa pergunta só Demidov pode responder, mas a minha opinião é que um jogador como Demidov, sem mão, com a acção pré-flop e contra Juanda, deveria saber que algo se passava naquela board sem draws depois do call no turn.

O call de Juanda não é um “Hero Call” mas é feito num spot e numa fase que poderia comprometer o seu torneio, e ele sentiu essa pressão. Depois da acção pré-flop e depois de Demidov representar o Ás com 2 barris (e um check no flop que completa a “história” de Demidov), é legítimo que Juanda ponha o adversário num Ás e não queira pagar uma “half pot sized bet” que representa um rombo na sua stack, caso perca o pote.
Fazendo a retrospectiva da mão, Juanda sabe que o adversário poderia ter jogado a mão assim com AJ, A10 ou melhor.
Provavelmente Juanda pôs o adversário num “Slowplayed King” ou num Bluff e seguiu as suas capacidades de leitura e análise, que são simplesmente das melhores do mundo, e assim ganhou mais um importante pote.

Nuno “Catita” Ferreira

O valor das stacks é muito semelhante, existe uma diferença de 100.000 fichas. Neste momento a acção é 3-handed e o limp/re-raise na Blind do John Juanda representa uma mão bem mais forte do que aquela que realmente tem (JJ-AA), apesar de neste momento da acção um Ás se apresentar mais valorizado. O call do Demidov é um call aceitável, QT é uma mão com algum potencial, tendo ainda a seu favor o factor posição.

Flop: uma board sem draws, Juanda continua a representação do seu monstro (e que bela representação! Pelo menos por enquanto…) fazendo check, permitindo a Demidov uma freecard e a avaliação do movimento do próximo movimento de Juanda.

Turn: Check – e continuação da representação. O “barril” de Demidov é o primeiro teste pós flop à mão de Juanda não sendo totalmente inocente, visto que o inside straigth draw é uma possibilidade e dificilmente o adversário o colocará naquela mão, caso o projecto se concretize. O call de Juanda é a continuação da sua bela representação (muito perto do fim), apesar do pot control aqui também ser bastante intuitivo, visto que o seu Ás de forte tem muito pouco.

River: Juanda: Check – acaba a boa representação e expõe-se totalmente ao showdown. Para Demidov o check nas 3 streets é sinal de fraqueza e não lhe resta nada mais que mandar outro barril. O tamanho da aposta é perfeito! Na minha opinião se o Juanda tivesse mesmo TT-QQ iria fazer fold. Mesmo assim é uma situação que deixa Juanda um bocado aos papéis, não lhe restando muito mais que dar um scared call.

Para mim a linha correcta de acção seria re-raise no turn e bet no river, evitando assim o showdown.